Doméstica vira artigo de alto luxo em São José do Rio Preto
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012Com 408 mil habitantes, guia São José do Rio Preto tem hoje, no máximo, 15 mil mensalistas, segundo estimativa do Sindicato dos Empregados Domésticos. O número é cerca de metade do que havia há dez anos.
A “casa-grande” imortalizada como símbolo da elite e do poder no Brasil colonial no livro “Casa-grande e senzala”, de Gilberto Freyre, não é mais a mesma. As bás, amas, enfim, a figura da empregada doméstica, que há séculos tem a função de zelar pela família para quem trabalha, é cada vez mais rara e se tornou artigo de luxo.
O desenvolvimento econômico mudou o perfil desse profissional, que tem preferido deixar de ser mensalista e se tornar diarista.
“Não temos um levantamento que nos dê base concreta para afirmar, mas o que notamos é uma migração da empregada para a faxineira”, diz Maria Aparecida Abel, diretora do sindicato da categoria.
Livre /Maria Helena Pereira de Souza, 56 anos, faz parte desse novo desenho de sociedade. Trabalhou durante 20 anos como mensalista e há três anos e meio é diarista. Mesmo “pegando no pesado” praticamente todos os dias nas casas que atende, sente-se livre para assumir compromissos que não podia como mensalista. “Quando você trabalha na casa de alguém, tem de estar lá todos os dias com uma folga aos domingos. Como diarista, posso conduzir minha vida, fazer cursos como de cabeleireira e manicure”, diz.
A advogada Cida Paschoalão, de 61 anos, contrata serviços da empresa Mary Help – onde Maria Helena é agenciada – uma vez por semana para a limpeza pesada e ainda conta com os serviços de Roseli Garcia, que vai outros dois dias da semana para manter o apartamento em ordem. Roseli trabalha em três casas como diarista.
Em duas está há mais de 20 anos e há seis com Cida. “É mais vantajoso do que ser mensalista”. A tia Lica, como é chamada, tem uma moto nova, deu entrada em um apartamento e paga a faculdade de fisioterapia da filha e a de ciências da computação do filho. “Ela é mais do que uma diarista. Ganhei uma amiga”, diz satisfeita a advogada.
“Mas como o apartamento é grande, preciso de outra auxiliar”. Cida conheceu os serviços da Mary Help em dezembro. Lica teve de passar por cirurgia de varizes. “A empresa treina e manda uma funcionária qualificada. É ótimo”, diz.
Queda /Segundo Andrea Nakamura, proprietária da franquia Kangurut Home Rio Preto, aberta em maio de 2010, de lá para cá a procura de pessoas para trabalhar como domésticas caiu em torno de 20% a 30%. “As mulheres preferem atuar em outras áreas como empresas e indústrias. O salário é a maior reclamação que temos das domésticas”, diz.
Domésticas não deixam herdeiras
O trabalho de mensalista está com os dias contados porque as filhas dessas mulheres não querem seguir os passos das mães. Preferem trabalhar como diaristas ou em ramos totalmente distintos.
80 a 90 reais é o preço cobrado pela Mary Help por uma diarista, a empresa tem inclusive seguro caso ocorra de uma diarista quebrar algo de valor na casa do cliente.
Empresa cobra R$ 350 para arrumar doméstica
A Kanguruh Home Rio Preto cobra R$ 350 dos clientes que querem mensalistas. A empresa faz seleção, checagem de referências anteriores e o nada consta criminal, além de dar prazo de 60 dias para que o cliente possa trocar de profissional. Mas não dá treinamento.
Cleonice, um exemplar em extinção, não abre mão de trabalhar como mensalista
Cleonice dos Santos Acácio, de 53 anos, trabalha como doméstica há 20, desde que veio para Rio Preto. Foi ser mensalista por falta de opção, mas hoje tem paixão pelo que faz. Tanto que frequenta cursos de qualificação, como organização residencial, de ambientes e preparação para ser governanta.
“Já trabalhei como governanta para uma família de Rio Preto, mas hoje organizo e cuido sozinha de todos os serviços da casa. Estou mais para uma empregada mesmo.” Com carteira assinada, salário de R$ 1 mil e mais R$ 200 que os patrões recolhem para o INSS, Cleonice diz que não trocaria o trabalho de mensalista pelo de diarista.
“Consegui formar meus filhos, que hoje são pequenos empresários e tenho minha própria lanchonete, em Rio Preto.”
Segundo Paula Levy, consultora de organização e comportamento, a tendência é de que a figura da doméstica desapareça daqui alguns anos. “Teremos as diaristas e as funcionárias especializadas, como no caso de Cleonice, que é mais do que uma doméstica porque tem conhecimento a mais.”
Fonte: Rede Bom Dia